quarta-feira, 10 de julho de 2013

Despertar do Despertar

Eu costumava a acreditar naquilo que algumas pessoas como o ‘professor espiritual’ Tony Parsons dizia, ou seja, que após o despertar (que é visto como um tipo de misterioso e raro não-evento ou mudança de perspectiva) a personalidade não mudaria, e que não haveria necessariamente mais alegria, intimidade ou compaixão na vida. 
“Na real, depois de despertar, você pode continuar sendo uma pessoa depressiva à beira do suicídio, ou uma pessoa violenta, ou até mesmo um serial killer!” Dizia ele.

No início, ao se escutar uma mensagem tão radical e chocante como esta, sente-se uma espécie de alívio - o despertar soa algo tão simples, tão pé no chão, tão acessível, tão ... comum..
‘Antes do despertar eu era um imbecil, após o despertar eu continuo sendo um imbecil. E me permito ser um imbecil, pois agora estou livre e ninguém pode me tocar. Ah, e não há um eu, tampouco escolhas a serem feitas. A imbecilidade apenas acontece.’

O ego celebra isso. Agora ele ganhou carta branca. Nenhuma responsabilidade! Nenhuma consequência! Rédea solta! Ninguém aqui! Yupiiii! A busca acaba aqui!

Eu tenho percebido que este tipo de mensagem ‘neo-Advaita’, como é conhecida atualmente, é extremamente unilateral. É uma verdade parcial, requintadamente simples, mas que de forma alguma se traduz naquilo que ela realmente é (nada a traduz!), e que pode inclusive ser prejudicial quando mal escutada ou mal falada (transmitida).

No sentido absoluto, despertar não muda nada, isso é verdade. Quem você realmente é – a própria vida, consciência, o Ser - não muda, é tudo que existe ou já existiu. Nesse sentido, nada acontece. Despertar é o zero absoluto. É um não evento além do tempo. É anterior às palavras.. é algo que pode apenas ser sugerido.

Mas no sentido relativo, despertar muda absolutamente tudo. Uma vez que já não existe mais uma ‘pessoa’ a ser defendida, uma vez que a vida já não é mais uma tarefa, e que todos os sentimentos são profundamente aceitos (sem esforço) para surgir e desaparecer na vastidão que você é, naturalmente, sem resistência. O saber absoluto penetra em todos os aspectos da relativa experiência de vida. A alegria borbulha. O medo da intimidade entra em colapso. Você já não está mais interessado em defender posições mentais, em estar certo, em preservar qualquer tipo de auto-imagem, mesmo a imagem que você tem além de todas as imagens. De toda forma, nenhuma imagem se traduz naquilo que você realmente é. A vida se torna aquilo que sempre foi – uma aventura. Apaixonante. Intensa. Pura conexão. A compaixão naturalmente se revela. E de repente você se percebe escutando, com muito mais profundidade do que antes, os seus entes queridos, pessoas desconhecidas ou que possuem pontos de vista divergentes.. justamente porque não há mais “você” ali ouvindo a todos. Você deixa de tentar pregar, ensinar ou defender as suas posições, até mesmo a sua ‘não dual’ posição! Você perde o interesse em provar o quão bem sucedido, engraçado ou desperto você é, o quão ausente o seu ego está ou o quanto você é livre. A sua ausência é a estonteante presença da vida. O mundo inunda a tudo, e isso se traduz em você; e este é o fim da violência e do conflito interno. Pois não há outro. Um paradoxo, com certeza. (Abrace o paradoxo!).

Este novo amor encontrado não se trata de um ganho ou de uma realização pessoal, mas sim de uma perda, da perda de um mal entendido, o colapso da guerra com a vida.

Eu respeito estes mestres neo-Advaita, mas vejo os seus ensinamentos (desculpa, os impessoais ensinamentos de ninguém!) tão frequentemente incompletos e unilaterais, ainda que se apresentem como verdades absolutas inflexíveis e imutáveis. Sim, cheios de sabedoria e certeza mental - mas carentes do ingrediente principal: coração. Focados no ‘nada’, na ausência da ‘pessoa’ e na ilusão do ‘livre arbítrio’.. mas sutilmente denegando o todo, a diversidade da vida, a profunda humanidade, a compreensão humana e a compaixão pelo sofrimento, sem a qual nos tornaríamos meros robôs, fantoches, bestas, e, em última análise, assassinos. Apaixonados por um ‘ninguém aqui’, mas carentes daquela alegria sem causa, que é o sumo, a essência real, a inesperada graça.. do despertar.

Mais uma vez volto a citar a equilibrada e íntegra reflexão de Nisargadatta Maharaj:

“A sabedoria diz: Eu sou nada.
O amor diz: Eu sou tudo.
Entre os dois, minha vida flui.”

~ Jeff Foster
(tradução: Chris M. - Dharmani)

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