sexta-feira, 20 de maio de 2011

A verdadeira comunicação

Um convite a desenvolvermos um nível de diálogo que se alimenta daquilo que existe de mais essencial em nossos seres. Assim é o texto escrito a quatro mãos pelo casal de terapeutas norte-americanos Stephen e Ondrea Levine.

Comunicar é ultrapassar nossas fronteiras. Na melhor das hipóteses, é tentar transmitir o coração. Senão, pelo menos tentar entender.

Uma vez que todas as pessoas parecem nascer com sutilezas perceptivas inerentes a suas personalidades – ou ao que chamamos Karma – naturalmente surgem equívocos entre “realidades” assim diferentes. Quando isso ocorre, a comunicação torna-se uma mediadora, uma tentativa de compreensão enviada por um pombo-correio por sobre as muralhas da fortaleza.

Achamos que o fosso de nossa pretensa indiferença nos protegerá, mas nossos castelos estão em chamas. E, em nossa confusão, tentamos esconder a fumaça em vez de apagar o fogo. Muito de nossa “comunicação” é uma tentativa de controlar o fogo. Grande parte disso advém do medo de que o outro nos veja como tememos ser na verdade: confusos e espertos, misteriosos e afetados, egoístas, irritados, indignos de confiança. Tememos compartilhar nossa mágoa, tão pequena é a parte de nós que se entregou à restauração. Pesamos nossas palavras. Ninguém diz exatamente o que quer dizer. Tentamos comprar amor com tons melodiosos, como um gato esfregando-se, a ronronar, em nossas canelas.

A maioria usa a linguagem como uma pessoa cega usa uma bengala: para liberar o caminho à frente, um tipo de sonar emocional para testar segurança do terreno. Reagindo tanto ao tom quanto ao significado. A fala, para a maioria, não é tanto uma forma de comunicação, mas uma proclamação do eu, uma delimitação de território, o cheiro da urina nos arbustos para mostrar a quem vier depois quem esteve lá primeiro. É uma declaração de domínio. Afastar-se alguns passos, levantar a perna, filosofar.

Acolhendo o outro

Mas a verdadeira comunicação vem de uma poderosa disposição de não proteger a si mesmo ou de se estar sempre certo. Vem de um anseio pela verdade, por doloroso que isso às vezes possa parecer. Vem da percepção direta. De uma grande atenção ao proceso, vem de uma capacidade crescente de revelar bloqueios e de acolher esse outro único como ele é.

A comunicação, como próprio relacionamento, é a arte do espaço. É um senso de oportunidade e uma exploração contínua da intenção de comunicar. É um questionamento profundo daquilo que, na verdade, comunica.

Está escrito que, ao lhe perguntarem sobre as práticas aceitáveis de alimentação, Jesus disse: “Não se preocupem com o que lhes entra na boca, mas com o que sai dela”. Talvez ele tenha reconhecido que, em ambos os casos, com freqüência estamos mais entorpecidos de boca aberta. Uma porção enorme do que passa por comunicação não é muito mais que resmungos durante o sono. É raro estarmos tão mecanicamente ou inconcientes como quando contamos a alguém quem pensamos ser.

Para a mente pequena, a comunicação conserva o mundo organizado e mantém seus horizontes. Para a mente ampla, a comunicação é o que conecta o coração com o desalentado, sem coração. Para a mente pequena, a comunicação leva você aonde quiser. Para o grande coração, a comunicação é a capacidade de estar em comunhão com o próprio existir.

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