domingo, 29 de maio de 2011

Render-se à verdade, sejam quais forem as conseqüências

Busca, demanda, negação (e outros passatempos)

Sydney, Austrália ~ Encontro público – 19 de novembro de 2005

Há o que chamo “uma experiência essencial”, um momento em que há uma mudança de consciência. E é essencial porque até este momento, toda conversa sobre ser “verdadeiro” ou “vigilante” ou “dizer a verdade” é abstrata, como algo que aprendes na escola. Nada disso pode ter um significado concreto em tua vida até que tenhas tido essa experiência. Com essa mudança de consciência, o que não era conhecido é visto de repente. E esse reconhecimento é uma sorte para toda uma vida. É uma bênção para toda a vida. É a graça que chega. A graça que estava encoberta aparece nesse momento.

O reconhecimento é o princípio. Pode ser o fim da identificação errônea. Pode ser o final. Mas, para a maioria dos seres humanos normais, é o princípio. Somos tão viciados no poder da mente que normalmente o que ocorre logo depois da experiência é um pensamento: “Como posso conservá-lo” ou “Não pode ser tão simples” ou “Nunca perderei isso”. Qualquer que seja o pensamento, é seguido por outro. E eventualmente os pensamentos conduzem a: “Bom, o que aconteceu? Aconteceu? O que é real?”. Então há esse sentimento de estar “perdido”. E a busca começa de novo, a busca no exterior. Ou há o pensamento: “Lembro o que fiz. Enfrentei minha emoção. Penetrei em meu medo. O farei agora e voltará. Conseguirei que volte de novo.” Esta é a mesma busca, porém agora estás utilizando um movimento interno para ir ao exterior. Converte-se em um exercício, um processo, algo a fazer para conseguir o que és. E pode parecer funcionar meia dúzia de vezes. Mas põe-se a perder, porque está baseado em uma mentira: ainda estás tentando conseguir o que és. Não podes “conseguir” o que és. Isto está claro?

Não podes conseguir o que és. Para conseguir algo, tem de haver um “tu” e um “ele”. E tu o alcanças e o “consegues”. Como consegues o que és? Quê vais alcançar? E não podes “entender” o que és. Podes ler as palavras “sou a Verdade, sou consciência” e isso pode fazer com que te sintas bem. Podes vibrar com isso. Podes cantar. Faz-te sentir bem. Podes rezar por isso. Podes ler sobre grandes santos e sábios. Faz-te sentir bem, é uma ajuda, e não há nada de mal nisso tudo. Porém, finalmente, tem de haver uma disposição para ser quem és. E para a maioria das pessoas é absolutamente aterrorizante. Porque a maioria crê que é a pior coisa imaginável: uma criatura de imperfeição, carência, feiúra e estupidez. Inclusive, se há uma capa de conhecimento superior ou de inteligência, embaixo disso está a crença de que és complicado, feio, irredimível, uma alma perdida e separada de Deus. Concordas? Tens que saber isto.

Toda nossa atividade é uma tentativa de escapar disso. Inclusive depois do “momento essencial”, o esforço por escapar continua: tentando conseguir que o momento volte, reclamando-o para poder conservá-lo. Tudo isso é alimentado por uma profunda crença entrincheirada de que és algo feio, impossível de amar, que está separado de Deus. E nunca trabalhas duro o bastante, nem és bom o bastante para reunificar-te.

Assim é que este é o dilema. Esta crença oculta, em conflito com o enorme, cósmico, anseio de descobrir quem és realmente. E a vida espiritual freqüentemente se converte em uma vida de tortura, de autotortura. Essa batalha entre o ego e o superego, entre o ser mais “elevado” e o mais “baixo”, entre o eu e o Eu, é somente para evitar a feiúra que crês que és tu mesmo.

Lembro que uma vez lendo a Trungpa (um mestre espiritual), dizia: “Nem sequer incentives teus amigos a entrar na vida espiritual; é uma vida dura”. E a maioria de nós entramos nela de forma muito casual ou despreocupada, com a idéia de isso nos fará felizes para sempre. Mas então algo te pega pelo pescoço e diz: “para aqui, diz a verdade, encara a verdade, seja tu mesmo”.

Assim é que os convido a estarem dispostos a ser pegos pelo pescoço, a estar contra o solo até que se rendam à Verdade sejam quais forem as conseqüências. Preparados? Não estariam aqui se não estivessem. Porque já descobriram que a investigação em vossa verdade não lhes dará grandes poderes ou riquezas, ou felicidade. De fato, não lhes oferece nada. Tudo se lhes tira; tudo o que tenham acumulado, tudo o que tenham aprendido. Tudo o que tenham armazenado se revela como vazio, como uma ilusão que os mantêm longe de si mesmos. Isso é radical. É extremamente sério. É algo alegre, algo simples. Mas não é para o coração temeroso. É necessário um grande valor, porque tudo em nós, tudo em nosso condicionamento diz: “Não, não. Não vás aí. Não toques nisso. Não o faças.” E ainda assim, quando alcanças um certo grau de anseio, tudo em tua vida está dizendo: “Tens que fazê-lo, tens que descobrir a verdade, tens que saber, tens que ser a verdade.” E então verás onde está sua lealdade, onde está sua atenção.

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